ELOGIO DA INGENUIDADE OU AS DESVENTURAS DA ESPERTEZA SALOIA
«Le génie et l’enfance ont une admirable ressemblance: c’est la naïveté!»
«Les homes n’ont donc pas remarqué que le contraire de l’art c’est la ruse? Pour návoir pas encore fait cette remarque, il faut vraiment qu’ils soient bien vieux.»
ERNEST HELLO
Aquele que recorrer ao dicionário para que este lhe diga o que sabe sobre a palavra ingenuidade, talvez, como eu, fique surpreendido com o que consta acerca do significado e história da palavra ingénuo.
Tendo sido escrito o título da presente palestra antes da minha visita ao dicionário, não poderei deixar de reconhecer que apenas a intuição me levou a intitular desta maneira o que eu desejava esclarecer.
Ao escrever Elogio da Ingenuidade ou as Desventuras da Esperteza Saloia, a intuição não me faltou, mas devo dizer-lhes que o meu intuito nestas palavras era premeditado. Para melhor esclarecimento dos que ouvem passarei a contar-lhes lealmente o que pensava antes de encontrar o significado da palavra ingénuo e o que aprendi depois de o ter encontrado.
A minha primeira ideia, intuitiva e premeditada ao desejar fazer o elogio da ingenuidade, era o de entrar acto contínuo no terreno e atmosfera próprios da poesia, nesse único terreno e atmosfera onde a poesia, e por conseguinte os poetas não encontrarão nenhuma espécie de atritos para a sua voz e expressão.
Isto é, o elogio da ingenuidade, dirigia-se única e exclusivamente aos poetas e absolutamente a mais ninguém.
Só depois de conhecer o significado e história da palavra ingénuo é que francamente eu desejaria que aqueles que não são poetas, mas de qualquer maneira tratam com eles, ouvissem também estas palavras, para saberem em que altura vivem os poetas por cima do trato de quem quer que seja. Contudo, repito, o elogio da ingenuidade continua a referir-se única e exclusivamente aos poetas e absolutamente a mais ninguém. Na própria continuação do título, As Desventuras da Esperteza Saloia, estas desventuras e esta esperteza saloia são referentes ainda a desvantagem e prejuízos que apenas a poetas e absolutamente a mais ninguém dizem respeito.
Haverá talvez alguém que creia que estas desventuras e esta esperteza saloia se referem às deles; não. Dizemo-lo claramente, não é à esperteza saloia deles que nos referimos, não, é à dos poemas.
Por conseguinte, a vós poetas única e exclusivamente me dirijo, e aos outros, que nos escutem ou que se vão embora.
Antes de mais nada é necessário dizê-lo bem alto para que bem o oiça cada qual isoladamente: Não é o bastante frequentar os poetas ou a poesia para se ficar poeta. Não. Nós sabemos onde hão-de ir buscar simulado prestígio aqueles que não o saibam encontrar nos seus lugares pessoais, ou que não se satisfaçam com o que tenham encontrado. Não, a poesia não concorre com ninguém nem com nenhuma outra expressão da vida. Não concorre porque vive. Ou vive ou morre, não lhe cabe nunca a vez de concorrer.
Dentro da Poesia, cada poeta que se realiza é tão representante da Poesia como aquele que ainda vai longe de se realizar. Isto é, dentro da Poesia, cabem todos os valores, realizados e a realizar, desde o momento que sejam valores. A poesia nutre-se com os seus próprios valores, e não se adianta nem atrasa com amigos e inimigos da Poesia, nem com pseudo-concorrências entre valores, os quais concorrem entre si é precisamente porque não representam valores, inconfundíveis e inteiros.
Não há criatura humana que neste mundo não tenha nas suas reservas pessoais as probabilidades de realizar em si o próprio poeta; simplesmente, estas probabilidades são geralmente afogadas pelo próprio, único culpado da morte do seu poeta, morto por desgosto de o ver fazer coroas de louros que não são da sua propriedade legítima.
É tão fácil deixar morrer o poeta como substituí-lo por um filisteu.
Estas minhas palavras são para eu próprio provar aos que me ouvem que o assunto do Elogio da Ingenuidade ou as Desventuras da Esperteza Saloia não mete terceiros entre poetas. Tenho usado do meu melhor possível para que determinada gente deixe de ter ou fazer confusões com a minha pessoa, mas tendo-me sido inútil neste sentido todo o meu cuidado, hoje só tenho esperanças verdadeiras a este respeito na data do juízo Final. Entretanto, enquanto for vivo, eu continuo na minha, como não podi deixar de ser.
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Até este momento falei-vos em Poesia e poetas e a alguém pode parecer estranho o emprego de tais palavras a propósito desta exposição de pintura e de escultura. Foi expressamente que, para este momento, preferi as palavras Poesia e poetas às que seriam indicadas para este lugar, Arte e artistas. Foi expressamente porque onde não haja afinal senão valores plásticos de pintura e de escultura, isto é, onde estejam ausentes as letras e as rimas, já ninguém possa encontrar poetas senão entre os que se serviram de cores ou da pedra. Se eu lhes chamasse artistas, corria o perigo de que os que me ouvem os pudessem confundir com os presentes pintores e o escultor e não vissem precisamente neles os poetas e o escultor e não vissem precisamente neles os poetas a que me desejo referir.
Neste meu elogio da ingenuidade, a pintura e a escultura estão ambas exactamente em terceiro lugar. Em segundo lugar estão os artistas que da pintura ou da escultura se serviram para expressar o que de Poesia desejam fundar em realidade.
Mas em primeiro lugar estão precisamente os poetas, esses que têm o dom de descobrir os próprios fundamentos da vida, e ainda antes mesmo que a vida tenha podido assentar na realidade.
Não é eventualmente hoje e neste lugar que eu ponho a poesia primeiro do que a Arte. A Poesia, livre de toda e qualquer arte, onde ainda ou já não se sinta a expressão da arte que a serviu, faz parte íntegra do recôndito mais puro da pessoa humana. A Arte é um estratagema para a Poesia.
Poderemos pôr em marcha todas as técnicas magistralmente, mas se se perde o contacto imediato com a Poesia, bem hão-de todos e cada qual esperar-lhe pela terrível volta!
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Antes de ver no dicionário o significado da palavra ingénuo escrevi o título Elogio da Ingenuidade ou as Desventuras da Esperteza Saloia, isto é, tinha intuitivamente encontrado uma força vital de puro sentido poético, origem e sangue da própria luz, ter´´ivel e bela como tudo o que vive. Pela vida fora, constantemente me foi dado observar que a ignorância é portadora de uma intenção que ultrapassa a da sabedoria. Ora esta veemência característica da ignorância, isto é, do estado imediatamente anterior às primícias do conhecimento, perde sensìvelmente parte da sua potência à aproximação do conhecimento, e chega a desaparecer completamente depois do conhecimento, donde resulta que o conhecimento foi, afinal, tardio, ineficaz e estéril. Contudo é conhecimento.
Todo o saber é descontado no viver. Pelo conhecimento pode-se quando muito orientar-se a vida, mas nenhum conhecimento serve para viver.
Já outro tanto não acontece com as forças contidas na ignorância. Estas forças contidas na ignorância são verdadeiros luzeiros dos caminhos individuais. A ignorância de cada um é incomparàvelmente mais respeitável do que todo o conhecimento que lhe possa ser fornecido. Porque o conhecimento é fornecido e a ignorância tem como limites o próprio mistério individual. Na passagem da ignorância para o conhecimento pode perder-se, afinal, o principal, o próprio.
Bem o ouvides, eu não faço a apologia da ignorância nem o desprestígio da sabedoria, tão-sòmente me refiro que nas idades da ignorância existe uma força vital que não parece trespassável para as da sabedoria.
Há um ditado que diz: se a juventude soubesse e a velhice pudesse… ora a juventude é bem o sinónimo de ignorância e a velhice de sabedoria. O que importa é que as energias da ignorância não se estiolem na sabedoria. Ou melhor, que o conhecimento não seja tão usurpador que só se deixe trocar pelo total das energias que animam cada pessoa em estado de ignorância. Por mim, eu vejo vida na ignorância e morte no conhecimento. O conhecimento é colectivo, por conseguinte anónimo, ao passo que na ignorância estão ainda aquelas forças, as quais, se não revelam, pelo menos iluminam em volta a presença de cada qual neste mundo.
Entretanto desejo apresentar-vos dois exemplos que talvez indiquem melhor o que provàvelmente não chegaria a levar ao vosso conhecimento.
Todos sabem que existe na Europa ocidental uma arte que fez o seu aparecimento na Idade Média com a construção das catedrais góticas, iluminando as janelas com vidros de cores e transformando inteiramente os templos em visões reais da história sagrada e outros aspectos da vida quotidiana como se de facto sejam assuntos da mesma pertença. Esta arte conhecida por vitral, e que é uma arte independente da pintura como de qualquer outra expressão de arte, tem por função aproveitar a diferença de luz da atmosfera livre para um recinto fechado na intenção de ajudar a concentrar-se cada um colectiva e individualmente.
Desde o século XII até aos nossos dias, a arte do vitral seguiu determinados caminhos mantendo a sua função. Porém, apenas a função foi mantida. A sua intenção desde os séculos XII e XIII para cá, foi-se apagando a pouco e pouco até ficar exclusivamente reduzida a uma função. Isto é, quando nos séculos XII e XIII apenas se conhecia uma elementaríssima química de cores e de fornos de cozedura do vidro, os artífices desenhadores de vitrais supriam todasas faltas da técnica principiante com a sua alma de primitivos autênticos. Subordinados, por um lado, ao clero, e aos mestres da obra e por outro lado postos diante de uma técnica inteiramente por fazer, os vitralistas dos séculos XII e XIII estavam condenados a ter que tirar tudo de si próprios. Uma enérgica simplicidade, um grande carácter, um colorido ousado, silhuetas poderosíssimas, tais são as características que nos oferecem imediatamente os vitralistas do século XII.
Depois, com o andar dos tempos, a química esmerou-se, a técnica tornou-se infalível, mas os vitrais foram simultâneamente perdendo o seu vigor, a sua força o seu carácter. Tinha-se criado a arte do vitral mas perdera-se a poesia dos seus ousados e ignorantes precursores!
O outro exemplo é ainda tão nítido como este que acabo de vos mostrar, é o dos esmaltes de Limoges. Se a alguém já foi dado cotejar um esmalte de Limoges do século XI com outro do século XIII pode certamente reparar em que a alma falante dos esmaltes de Limoges do século XI foi totalmente substituída pelos brilhos químicos do século XIII.
Trouxe estes dois exemplos, não para provar que a técnica mata a poesia, mas porque presumo que a poesia, sendo pura criação, há-de constantemente criar também os seus próprios meios de expressão.
Quando Max Jacob diz: Aujourd’hui faire du génie avec des allumettes, é evidente que ele crê que com fósforos também se podem criar novos meios de expressão. Sobretudo, ele dá toda a importância ao génio, e os fósforos, na sua frase, são sinónimos de todas as artes e técnicas.
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José de Almada Negreiros, Obras completas. V. Ensaios I, Lisboa: Editorial Estampa, 1971, pp. 115-121