Há coisas do arco-da-velha… não sei ao certo de onde remonta esta expressão, nem vou indagar, mas a verdade é que realmente há.
Não escrevo para o manifesto há mais de um ano, é curioso, assim num ano muda tudo e nada.
Como um amigo meu me dizia há alguns dias nos votos de Feliz Ano Novo que mude tudo para que se mantenha tudo na mesma. Bem, não era bem isso que ele dizia mas também nunca tive muito jeito para “reproduções”.
Mas, realmente ele há coisas do arco da velha, sabes quando falas numa pessoa que não vês há séculos e no minuto a seguir ela te liga, ou te lembras de um momento e toca no rádio a banda sonora do mesmo, ou te esbarras com lembranças menos agradáveis e lá volta o redemoinho de emoções, enfim, ele há coisas do arco-da-velha.
Há quem lhe chame destino, fado, acaso, matemática, probabilidade, etc, etc… Eu continuo com a minha, depois de um ano de convulsões no meio dos sonhos caídos e da falta de eficácia dos meus pós de perlimpimpim, realmente as curvas, cruzamentos, rectas, vales e planícies que os últimos meses foram, apenas me poderiam conduzir aqui, ao sítio das coisas que mudam e que estão sempre na mesma. Os sorrisos de alguns, os votos e esperanças dos mesmos, num ano novo e a minha novidade antiga, um sorriso acompanhado de um olhar de luar. Provavelmente nunca irás ler estas palavras, não chegarás a ouvir-me dizer-te isto, mas és o responsável por agora acreditar. Ele há coisas do arco-da-velha, as inesperadas, pouco poéticas, absolutamente curvilíneas, como se o argumentista se divertisse a ver-nos cair e a juntar quem cai para se levantar. Dizem que Deus nos fecha uma porta e nos abre uma janela, pensamos que não é assim quando não temos a chave da fechadura, mas depois, bem! Depois, e porque há coisas do arco-da-velha, percebemos que a porta era errada e talvez até a casa. Resta-nos a procura incessante, e melhor ainda, o acaso matemático do inesperado, e… para alguns, a certeza de uns olhos de luar pousados nos seus. Parecendo ser contraditório, o Universo ajusta-se sempre em puzzles mais acertados do que aqueles que o preconceituoso olho humano permite. Por isso, para ti que me viste e que vi sem olhar mas a sentir, aqui vai um poema, sejas ou não a janela, a porta ou a casa, talvez nunca o leias mas também já é teu,
Ó Véspera do Prodígio! – IV
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,Creio em amores lunares com piano ao fundo,Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,Creio num engenho que falta mais fecundoDe harmonizar as partes dissonantes,Creio que tudo eterno num segundo,Creio num céu futuro que houve dantes,Creio nos deuses de um astral mais puro,Na flor humilde que se encosta ao muro,Creio na carne que enfeitiça o além,Creio no incrível, nas coisas assombrosas,Na ocupação do mundo pelas rosas,Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
(NATÁLIA CORREIA In, Poesia Completa)